Por Robert Conkling
ROMA, sexta-feira, 25 de julho de 2008 (ZENIT.org).- Se não fosse pela «Humanae Vitae», boa parte da medicina reprodutiva natural e da luta contra a infertilidade praticada hoje não teria existido, afirma o pioneiro das tecnologias naturais procriativas (Natural Procreative Technologies, NaPro).
O Dr. Thomas Hilgers é o co-fundador do Instituto Paulo VI, de Omaha, Nebraska (Estados Unidos). Também desenvolveu o Creighton Model Fertility Care System e é autor de «The Medical and Surgical Applications of NaProTechnology» (Aplicações médicas e cirúrgicas de NaProTechnologia).
Por ocasião do 40º aniversário da publicação da encíclica «Humanae Vitae» (25 de julho de 1968), a Academia Americana de Profissionais de Fertilidade teve seu encontro anual no mês passado, em Roma.
Nesta entrevista concedida à Zenit, Hilgers dos primeiros efeitos que a «Humanae Vitae» teve em sua carreira profisisonal.
– Onde começou a idéia de fundar o Instituto Paulo VI? Qual foi sua inspiração?
– Hilgers: Eu estava estudando Medicina quando aconteceu todo o debate na Igreja Católica sobre o controle da natalidade. O Papa João XXIII havia nomeado uma comissão pontifícia sobre o controle de nascimentos e tinha falado com especialistas em Medicina, Filosofia, Teologia e Sociologia, considerando a postura da Igreja sobre a anticoncepção.
Conforme iam escapando notícias dessa comissão, parecia que acabariam recomendando uma mudança na postura da Igreja, mas só se conhecia uma parte da história.
Quando a «Humanae Vitae» foi publicada, em julho de 1968, eu pensei que o melhor seria lê-la. Assim, fui visitar meu capelão do Newman Club, na Universidade de Minnesota, e lhe perguntei onde eu poderia adquirir um exemplar da encíclica. Seu comentário foi: «Para que você quer ler esse tipo de lixo?».
Isso me irritou. Seu papel não era fazer um comentário editorial. Ele era um sacerdote, um sacerdote católico. Ele deveria compartilhar pelo menos o que a Igreja estava dizendo, e não ter medo de fazer isso.
Dois meses depois, os Cavaleiros de Colombo apresentaram um anúncio como suplemento do domingo. Por 25 centavos, poderiam enviar um exemplar. Fiz o pedido e, quando a recebi, logo a li e me converti imediatamente.
No final da «Humanae Vitae», o Papa Paulo VI pedia aos homens da ciência, aos médicos e aos profissionais da saúde que fizessem algo, que se envolvessem, Eu percebi que ele estava falando diretamente comigo. E segui isso.
Fiz um monte de pesquisas na faculdade de medicina. Trabalhei com pessoas da Universidade de Minnesota, aprendi a pesquisar e descobri que gostava disso. Comecei meu primeiro projeto de pesquisa em dezembro de 1968, em um sistema de planejamento familiar. Não fui muito longe, mas pelo menos foi o começo.
Depois de alguns anos de preparação em obstetrícia e ginecologia, encontrei-me com o Dr. John Billings, em 1972. Eu tinha escutado uma apresentação do método Billings e isso me colocou no caminho do que eu realmente queria. O método Billings era novo e trazia consigo um conceito diferente, que considerei digno de estudo.
Também sofreu ataques como qualquer coisa nesse campo, e eu achei que alguém deveria dedicar um tempo a fazer uma revisão independente sobre o tema.
Começamos em 1976, quando eu estava na faculdade da Escola de Medicina da universidade de St. Louis. E em um ano e meio, descobrimos essa linguagem, uma linguagem comum que as mulheres poderiam usar quando fizessem suas observações, que os médicos soubessem o que elas observavam e com a qual os professores poderiam se relacionar. Todo mundo estava usando a mesma linguagem. Era fabuloso. Foi o começo de tudo.
Nosso trabalho começou assim, com a pesquisa do método natural de planejamento familiar. O resultado foi que o método Billings, que depois se converteria no Modelo Creighton do método de ovulação, passou a ser algo natural, algo que um ginecologista pode indicar a seus pacientes que têm outros problemas, como infertilidade, dificuldade de engravidar, menstruação irregular ou qualquer outra situação ginecológica. Se estivessem em idade fértil, eu pedia às mulheres que anotassem seus ciclos.
– Quer dizer que você começou com o costume de anotar os ciclos?
– Hilgers: De certa forma, sim. Em um dos atlas publicados pelos Billings em 1974 ou 1976, havia algumas anotações de uma paciente que era estéril, e nelas se evidenciavam coisas que normalmente não se refletiam em mulheres de fertilidade normal. As mulheres anotam ciclos secos. Pensei que não havia razão para pensar que os Billings tinham publicado algo que não era verdade. Acreditei nisso.
Tive a idéia de fazer algo divertido quando, ao fazer nossa primeira sessão introdutória em 1976, havia duas pessoas com problemas de esterilidade que se dirigiram a mim. No final da apresentação, falei com elas para tentar solucionar seu problema. Mas elas não queriam. Pensavam que não havia nada a fazer.
No entanto, continuei tratando pessoas com problemas de fertilidade, de forma que começamos a aplicar o sistema a outros problemas ginecológicos.
Assim, passamos 15 anos nos quais não somente estudamos o sistema desde um ponto de vista do planejamento familiar, aprofundando nele, mas sim começamos a aplicá-lo e a aprender das nossas pacientes com problemas ginecológicos e reprodutivos.
Em 1991, publiquei um pequeno livro intitulado «Aplicações médicas do planejamento familiar natural: guia médica para a NaProtecnologia». Foi a primeira vez que se utilizou esta palavra. Aquele livro teve um impacto incrível nas pessoas e sempre me surpreendi por isso. Não pensei nele como em um grande livro.
Para mim isso foi assombroso, porque agora temos médicos incorporados ao nosso programa. Foi verdadeiramente motivador para mim, porque trabalhei durante muito tempo sem nenhum apoio.
Atualmente, nossa compreensão continua crescendo e desenvolvendo-se. Ainda não compreendemos tudo. Assim, em 2004 publicamos um livro de texto médico e agora estamos tentando colocá-lo em prática e continuar pesquisando.
– Quando você começou com esse trabalho, no começo dos anos 70, conseguia prever que 30 anos depois veria todo o desenvolvimento que ele teve?
– Hilgers: Não. Eu costumo dizer, com relação a esse desenvolvimento, que ele ocorreu em parte porque nunca fechei a porta a nada. As pessoas me perguntam quais foram minhas metas e objetivos. Eu respondo: «Não tenho metas nem objetivos». E isso porque eu não sabia aonde esse trabalho nos levaria.
Assim, fui percebendo com o tempo que começamos a ver as coisas que nunca teríamos visto se tivéssemos fechado a porta em 1978 e se tivéssemos dito que aquilo era tudo o que tínhamos de saber.
Deixamos a porta aberta e chegaram mais e mais coisas, ora uma mulher com esterilidade, ora outra com dificuldade de engravidar ou uma cistite recorrente… Continuamos aprendendo e aquela porta continua aberta. Depois começamos a perceber que com a NaProtecnologia, aquela porta ficou plenamente aberta, e conseguimos algo que vale a pena.
Mas para responder diretamente à sua pergunta, em absoluto, eu não fazia a mais mínima idéia e, certamente, uma meta ao começar isso. Só o que começamos a ver pesquisando.
– Ou seja, então a «Humanae Vitae» não teve impacto somente no planejamento familiar?
– Hilgers: tenho certeza de que, se naquele momento alguém tivesse me perguntado «eu gostaria de saber se este método funciona como um sistema de planejamento familiar, como um método para evitar uma gravidez», eu provavelmente teria dito que era eficaz, já que era aí onde estávamos naquele momento.
Mas aquilo não era um ponto final em si mesmo, porque para mim tinham muito sentido, como ginecologista, os fluxos vaginais ou as menstruações como sinais de problemas subjacentes. Inclusive pensando como ginecologista, sabemos muito pouco sobre essas coisas ainda hoje em dia, mas eu me sinto pasmo ao ver quão poucos ginecologistas sabem dessas coisas.
Foi uma viagem incrível nesse sentido, porque eu não esperava que fossem acontecer coisas assim.
– O que você gostaria que acontecesse dentro da Igreja institucional?
– Hilgers: Existem provavelmente duas respostas a esta questão. Em nossa conferência, falei do papel que a «Humanae Vitae» e a Igreja Católica desempenharam no desenvolvimento da NaProtecnologia. Eu acho absolutamente claro que nada disso teria acontecido se a Igreja não estivesse presente.
Posso pessoalmente voltar a quando você me perguntou sobre qual era minha motivação. Minha motivação foi a «Humanae Vitae». É claro e simples: lembro do dia em que a li, do dia em que percebi que era um fundamento nessa área. Mas eu não imaginada que se desenvolveria dessa forma.
Ao mesmo tempo, a Igreja tinha um papel absolutamente claro; se a Igreja não tivesse feito a sua parte, isso nunca teria sido alcançado. Estou totalmente convencido disso. E então eu me pergunto: se não tivéssemos tido essa visão, essa direção da Igreja, o que teria acontecido? Se a Igreja não tivesse se pronunciado, não haveria esperança hoje na área da medicina reprodutiva ou na área pró-vida.
Quanto ao outro lado da moeda, a «Humanae Vitae» também trouxe um monte de dissensão e controversa e acho que a Igreja respondeu bem a tudo isso em geral. Penso que os líderes da Igreja são, de certa forma, tímidos e foram intimidados pelas pessoas que dissentiam.
Eles, os líderes, os bispos e mais acima, e inclusive os sacerdotes e os religiosos católicos não dedicaram tempo a estudar isso, estudar os acontecimentos, estudar os avanços durante esse período, para poder adquirir sua própria sensação de confiança nesses avanços.
É preciso que a organização da Igreja seja capaz de avançar nisso. Para mim é claro também que é necessário que a Igreja continue envolvida, mas agora de uma forma muito mais prática, para que as pessoas se sintam animadas a fazer esse trabalho e a oferecer fundos.
Foi uma grande luta fazer isso sem nenhum financiamento externo. Nesse sentido, a Igreja continua tendo um papel enorme e tem de continuar à cabeça na área filosófica e teológica, no concernente à fecundação in vitro, clonagem, pesquisa com células-tronco embrionárias. Tudo isso surge da anticoncepção e, obviamente, precisamos de pessoas trabalhando nestes temas também.